segunda-feira, 11 de abril de 2016

Vamos educar sem gritos!

Parece impossível mas não é. Educar sem gritar (pelo menos tanto) exige tempo e um caminho de avanços e retrocessos. No final, todos ganham.A psicóloga Anne Bacus lançou recentemente o livro “100 Maneiras de fazê-los obedecer – sem gritos nem palmadas”. Trata-se de uma centena de conselhos que “deveriam evitar-lhe ter de gritar, enfurecer-se, repetir centenas de vezes as mesmas ordens ou proibições; envolver-se em negociações intermináveis; ir-se abaixo e acabar aos gritos ou à palmada”. A bem de construir em nossas casas uma atmosfera serena, onde seja agradável viver. Parece aliciante, não é? Lemos o livro e escolhemos cinco especialmente práticos.



1. Aprenda o modo de pensar da criança
As crianças não pensam como os adultos, pelo que é inútil tentar compreender certos comportamentos à luz dos nossos padrões. As suas expectativas e prioridades são diferentes e até as palavras não têm o mesmo sentido. A autora dá exemplos: “’Um minuto!’, para as crianças, dura sessenta segundos. Para os pais é o tempo de que precisam para acabar o que estão a fazer e ficarem disponíveis. ‘Imediatamente’, para os pais, quer dizer imediatamente. Para uma criança significa ‘quando os meus desenhos animados tiverem acabado’. ‘Arrumar’, para os pais, é fazer de modo a que cada objeto volte ao seu lugar de origem. Para as crianças, é deixar de ver o pandemónio…” As crianças caraterizam-se pela ausência de paciência e pela visão de curto prazo. Como Anne Bacus explica, “se ela gosta de bombons, é inútil convencê-la a não os comer falando-lhe das cáries que surgirão nos anos seguintes!”. Se os pais tiverem em conta estas diferenças, o relacionamento será mais fácil.


2. Elimine a urgência e a tensão
Quanto mais contrariado e pressionado se encontra o adulto, mais se enerva. Quanto mais uma criança sentir os pais nesse estado, mais se irá opor. A autora diz que “Despacha-te!” é a palavra mais ouvida pelas crianças. A tarefa é, então, eliminar o estado de urgência no nosso lar. Abrandar, escutar a criança, aproveitar melhor o momento, arranjar um pouco de tempo para relaxar e cuidar de si. “Recorde-se das últimas crises que o opuseram ao seu filho e tente compreender o que as provocou. Perceba o que o fez explodir e quais os comportamentos a que é sensível. Imagine como se poderia organizar de outra maneira”.


3.Descubra técnicas para manter a calma
Se chegar a casa muito cansada, enervada, cheia de coisas por resolver, o mínimo incidente provoca uma explosão! Nesses casos, previna os seus filhos e diga-lhes como se sente. Se puder, descontraia um pouco sozinha. Se não for possível, partilhe com eles atividades com “risco mínimo”, como verem televisão ou irem ao parque. Espere sempre um momento antes de reagir. Pode ser o tempo necessário para ver que a fúria está a crescer. “Duas ou três inspirações podem fazê-la parar e readquirir o sangue-frio”. Elimine as tensões através de outros meios de expressão, como bater numa almofada, cantar alto… “Não faça à frente do seu filho o que não gostaria que ele fizesse, como partir a loiça ou bater com as portas”. No momento em que sentir a fúria a crescer e a luta pelo poder a instalar-se, “pegue no seu pequenote e abrace-o. Olhe-o nos olhos e diga ‘Vamos acalmar-nos e fazer uns miminhos, está bem?’”. Sente que está mesmo quase a gritar? Prometa a si própria: “Não vou gritar” e, em seguida, fale com a voz mais doce que conseguir. “Ficará espantada com o efeito que produz no seu filho!”


4. Utilize um temporizador
“Aposto que não és capaz de te vestir antes do relógio tocar. Vou marcar dez minutos” ou “Tens cinco minutos. Quando isto tocar, sais do banho”. As crianças adoram desafios e o temporizador é eficaz porque não o podemos manipular emocionalmente. Com ele não se testam os limites, nem é possível fazê-lo perder a paciência. É simples, experimente.


5. Saia de cena e respire
“A melhor reação a uma cólera é retirar-lhe o seu público”. Em casa, sair da divisão onde a criança se encontra e ir tratar de outros afazeres, muitas vezes, é suficiente. É uma ocasião para poder respirar tranquilamente, ganhar tempo para readquirir a calma, recuperar a sua racionalidade, distanciar-se e deixar passar a fúria sem a derramar sobre o seu filho.


Berrar baixinho
Magda Gomes Dias, formadora na área de Coaching e Aconselhamento Parental, autora do blogue Mum’s the Boss, lançou aos pais um desafio curioso: o “Berra-me Baixo”. Construiu um programa a ser aplicado em 28 dias. “A adesão ultrapassou todas as expectativas! Toda a gente quer não gritar com os filhos. Gritar solta a tensão, mas depois de o fazermos ficamos tristes e arrependidos, pois não era nada daquilo que queríamos fazer”. Os pais inscrevem-se através do blogue e recebem, duas vezes por semana, uma newsletter com conselhos, informações e trabalhos de casa.
“Não é do dia para a noite que se muda, mas assiste-se a uma melhoria contínua enquanto pais e pessoas”, resume Magda. Gritar, não é mesmo solução. “Quando gritamos fazemos com que os miúdos fiquem ainda mais nervosos. E o que acontece? Bloqueiam! Ou atacam, em defesa. Gritar é diferente de ralhar, exigir, educar. É difícil, mas é possível. Um dia fazemos melhor e no outro parece que deixamos de saber fazer. É mesmo assim. Chama-se aprendizagem”. Na primeira semana, há uma tomada de consciência dos comportamentos. O objetivo é descobrir o que nos faz gritar. Na semana dois, investe-se no vínculo, na qualidade da relação com os filhos. Na terceira semana, encontram-se novas estratégias e, no fim, consolidam-se os conhecimentos.


Duas experiências
Ana Gama e Mafalda Cordeiro experimentaram o desafio. “São conselhos muito práticos e fáceis de aplicar. O mais complicado foi ter destreza mental para driblar as situações de ‘perigo’ com que nos vamos deparando”, reconhece Ana Gama. Quanto às melhorias sentidas, destaca: “Resolvo as situações com mais calma, o que me traz melhores resultados. Penso mais antes de agir. No entanto, não é um processo imediato. Vou interiorizando certos comportamentos, melhorando gradualmente”. O marido seguiu as mesmas orientações: “Tentei identificar os comportamentos que me fazem gritar, para estar um passo à frente das birras das crianças. Quando não o conseguimos, a nossa birra é pior do que a delas...”


Mafalda Cordeiro é taxativa: “Se estamos sempre a gritar com os miúdos, eles acham que é assim que se comunica e andamos todos a gritar. Não quero isso para nós!”. E partilha: “Tenho este desafio sempre em mente porque é muito fácil levantar a voz quando, à décima vez que pedimos para irem vestir o casaco, ainda andam aos pinotes e a correr atrás uns dos outros”. Mas conclui: “Quando a mãe não está bem, está zangada ou mal disposta todos sofrem por tabela. Por isso, desde que decidi aderir e assumir este desafio, vivemos todos muito melhor. Ninguém gosta de gritos. Nem nós, nem as crianças”.




“Nunca é tarde demais para experimentar”
Quais dos 100 conselhos foram inspirados na sua experiência?
A maioria deles! Só consegui escrever este livro porque tenho filhos, cometi erros e também gritei. Tive que experimentar imensas coisas para descobrir o que funciona e precisei de muito tempo para me distanciar.
Que conselho funcionou melhor com a sua família?
“Começa a tua resposta com um ‘sim’ e a criança irá ouvir o resto da tua frase. Começa com um ‘não’ e a crise vai começar…”
Qual é o principal segredo para uma educação de sucesso?
Eu diria que é criar um vínculo forte com o nosso filho, através da partilha de atividades que os dois gostem.
Nunca é tarde demais para experimentar conselhos?
Não, mas quanto mais cedo, mais fácil será.
O comportamento das crianças é sempre resultado do comportamento dos pais?
Não. Acho que há uma série de outras influências, algumas delas que ainda não conhecemos, como a alimentação e os amigos. E cada criança tem a sua própria personalidade.
Porque é que gritar nunca é uma boa solução?
Porque a criança tapa os ouvidos com as mãos e deixa de ouvir!
Por que é que uma família não pode ser governada como uma democracia?
Os pais são adultos, têm experiência e autoridade. Têm de tomar as decisões e perceber os seus efeitos. A criança pode discutir, ter ideias e dar a sua opinião, mas no final são sempre os pais que decidem.
Que coisas a sua mãe lhe dizia e que repete aos seus filhos?
“Continua, esforça-te, vais conseguir!”

Por Ana Sofia Rodrigues, in Pais & Filhos